sexta-feira, abril 14, 2006

Sexta-feira santa

Acho que não existe no Brasil nenhuma norma tão respeitada e obedecida quanto a de não comer carne na sexta-feira santa. O brasileiro trapaceia, sonega imposto, aceita e paga propina, compra pirataria e contrabando, mas não come carne na sexta-feira santa. Teríamos uma sociedade muito melhor se as leis e regras de boa conduta também fizessem parte da tradição cristã.

Eu procuro seguir esse costume, mas às vezes o questiono. Será isso realmente importante? Onde diz na Bíblia que os cristãos devem se abster de carne na data de hoje? Acho que mesmo outros rituais deveriam ser revistos. Sei de pessoas que vão à missa todos os domingos e passam o resto da semana cultuando o seu verdadeiro deus, que é o dinheiro. Ou a si próprios. Penso que o Cristianismo tem mais a ver com amor, altruísmo e honestidade do que com missas, cultos, igrejas e templos. Talvez um dia eu aprenda a gostar de ir à Igreja, mas até hoje, nunca consegui. E não foi por falta de insistência de minha mãe.

Na minha infância, havia outra abstinência na sexta-feira santa: música. Até fiquei surpreso quando, na sexta-feira santa de 1972, o Clube dos Artistas mostrou Agnaldo Rayol e Martinha cantando versões em português de músicas da ópera-rock "Jesus Cristo Superstar". Hoje sei que foi Vinicius de Moraes quem fez as letras e as duas faixas, que saíram em compacto, estão disponíveis na caixa de CDs de Vinicius. Com o tempo, quebrei essa norma. Eu, em minha adolescência, não conseguiria passar 24 horas sem música. Hoje até fico, mas é raro.

Mas continuo não comendo carne na sexta-feira santa. Questiono, mas não quebro a regra. Já conversei com amigos e colegas cristãos que disseram que esse hábito vem da Igreja Católica e não tem realmente fundamento bíblico. Mas pegou melhor do que lei ou decreto. Mas se o meu filho, que é autista e não entende, quiser comer carne, eu vou deixar. Aliás, ele já me obrigou a dar uma caminhada hoje pela manhã. Fomos até a Redenção. A cabecinha dele não registra conceitos impeditivos como "é muito longe" e "não dá pra ir caminhando", então ele é meu companheiro nos passeios a pé. Mas, no Maomé, comemos empada de camarão. A tradição é forte, não adianta. Mas não vou tolhê-lo na hora da próxima refeição. Provavelmente iremos ao Shopping Praia de Belas e lá ele vai comer o que quiser.

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