domingo, maio 22, 2005

Socorro!

Se eu tivesse 27 anos e minha mãe ligasse pro meu celular sábado à meia-noite me tirando do bar para buscar meu tio de 44 anos que está tendo um ataque de asma, eu não conseguiria esconder minha indignação. Nisso eu tenho que agradecer e tirar o chapéu (que eu não uso) para o meu sobrinho Ricardo. Não, não estou dizendo que ele não ficou indignado. Deve ter ficado. Mas disfarçou muito bem. E ainda brincou comigo para me tranqüilizar. Na verdade ele pensou que só teria que me levar para a casa da mãe dele, minha irmã. Mas eu pedi para ir ao hospital.

Eu já tinha tido uma crise de falta de ar à tarde. Estava com meu filho e tive que pedir à minha ex-mulher para devolvê-lo. Foi uma pena, o Iuri estava muito bem comportado e com tanta saudade de mim quanto eu dele. Mas não houve outra saída. Chamei um táxi que pareceu levar uma eternidade para chegar. Depois de deixar meu filho na casa dele, fui direto para a emergência do Mãe de Deus. Pela primeira vez entrei pela porta de emergência, mesmo, na cadeira de rodas (fiquei entalado), pois não conseguia dar um passo sem perder o fôlego (mais tarde meu sobrinho diria que eu estava com "um problema respiratório nas pernas"). Mas só de receber atendimento, já fiquei mais tranqüilo. Talvez por isso, o médico não levou muito a sério o meu quadro. Deu-me uma nebulização e me mandou para casa. Fui dormir às seis da tarde. À meia-noite, acordei com um pouco de chiado no peito. Levantei para ir ao banheiro e vi que era mais grave. Apesar do horário, resolvi ligar para minha irmã. E meu sobrinho acabou trocando o chopp com os amigos por um emocionante cochilo de três horas na sala de espera do hospital.

Se eu tinha alguma dúvida de que estou velho, perdi ontem à noite. Eu nunca soube para que servia aquele tubo plástico fininho que atravessa o rosto do paciente na horizontal, com duas entradas para as narinas. Não sei se foi porque a primeira pessoa que vi usando aquilo foi minha avó em estado grave, mas sempre associo aquele apetrecho a pacientes idosos em risco de vida. Eu não sabia nem o nome, mas se via em alguém, já pensava: esse tá mal! Pois ontem foi a minha vez de usar. Chama-se "óculos nasal". Não, não é para as narinas enxergarem melhor. É para oxigenar o sangue e o cérebro. Pelo menos foi o que a enfermeira me disse.

A médica da noite levou mais a sério a minha condição. Fiz três nebulizações, uma aplicação intravenosa de cortisona, um raio X e ainda tive uma sessão grátis de Serginho Groissman com direito a Gretchen (que estava aparecendo tão logo cheguei ao hospital, então achei melhor não olhar muito, para preservar o fôlego), Brazilian Genghis Khan e Jane e Herondy. Depois ela me deu um puxão de orelhas por não ter ido mais ao pneumologista e me receitou uma série de medicamentos. Ah, uma das recomendações foi a de que eu não ficasse sozinho em casa nesse período de recuperação. Resultado: estou na casa de minha irmã. Fazer o quê? Foi a médica que mandou!

Ela pensou que o Ricardo fosse meu filho. Só se eu tivesse feito alguma bobagem aos 16 anos. Pensando bem, até fiz, – muitas - mas não desse tipo. Não seria má idéia ter um filho como ele. Minha irmã e meus sobrinhos têm sido meus anjos da guarda. O Ricardo é sempre o escolhido para me "recolher" em casa. Já fez outras vezes. Agora estou em dívida com ele e vou acabar tendo que ir ao Beira-Rio, mesmo, atendendo à campanha dele. Só avisei que tem que ser nas cadeiras, pois não consigo sentar muito tempo sem encosto.

Velho, eu?