terça-feira, setembro 19, 2017

Poema anacrônico

Em 1974, eu tinha 13 anos. Estava me preparando para ir a meu primeiro Baile de Debutantes. Como par de uma delas, apesar de minha pouca idade. Nessa ocasião, conheci o então namorado de uma de minhas primas. Ambos eram de Passo Fundo, mas ela viria debutar em Porto Alegre. Então os dois estavam comigo, na casa de meus pais. Ele aproveitou para visitar a Feira do Livro e comprou "Deus Negro", de Neimar de Barros. Fiquei bastante impressionado com a obra. Tanto que acabei eu mesmo a adquirindo.

Mais tarde, quando cheguei com minhas compras da Feira do Livro, minha irmã se assustou ao ver aquele livro de capa preta com um título tão polêmico. Mas logo se tranquilizou. Os versos de Neimar de Barros tinham mensagens de cunho cristão. A maioria, pelo menos. "Impassível diante do dragão" é até hoje um de meus poemas preferidos sobre amor não correspondido. Mas havia também "puxões de orelha" naqueles que não praticam o que pregam. O pai que nunca tem tempo para o filho. O marido que ignora a esposa. O homem que tem uma dedicação exagerada a seu automóvel. O crente que talvez não estivesse preparado para encontrar um Deus negro.

No entanto, passados mais de 40 anos, eu observo como alguns daqueles textos eram um tanto moralistas e conservadores. Um deles descrevia uma "contagem regressiva" de um homem prestes a se deitar com uma garota de programa, para na hora H desistir de seu pecado. Mas o mais anacrônico de todos os títulos era, sem dúvida, "Mensagem a um homossexual". Ali, em última análise, Neimar pregava a cura gay. "Saia do homossexualismo! Levante-se! Levante-se! (...) Tome vergonha! Você é homem e não mulher / E receba o incentivo de quem crê / Que tudo se transforma, quando se quer / Tudo, tudo... inclusive você!"

Em 1986, Neimar concedeu entrevista à revista Veja onde se declarou um "falso convertido". Segundo verbete da Wikipedia: "Ele contou ter sido contratado por uma loja maçônica internacional, para se infiltrar na Igreja Católica e repassar informações sobre a conduta de religiosos." Isso, obviamente, coloca sob suspeita tudo o que ele escreveu antes. Seria ele um genuíno pregador de valores arcaicos ou apenas dizia o que a tradicional família brasileira queria ouvir? Difícil saber. Mas com certeza esse poema, hoje, não teria passado despercebido, nem seria aceito pacificamente, como aconteceu nos anos 70. Neimar faleceu em 2012.

Para que não haja dúvidas: dou meu total apoio à causa LGBT.

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