sexta-feira, dezembro 30, 2005

O mistério de Vincent Bell

Em 1970, um dos temas do filme "Aeroporto" foi gravado por Vincent Bell com um arranjo mais sofisticado e lançado como "Airport Love Theme". A gravação foi um sucesso, não apenas porque a melodia era bonita, mas também porque Bell criava um som diferente, novo, que não se sabia ao certo de que instrumento saía. Informado da existência de um LP, fui na King’s Discos em 1975 (eu tinha 14 anos) e perguntei: "Tem alguma coisa do Vincent Bell?" A vendedora disse que não. Experimentei acrescentar a informação: "É o que tocou o Aeroporto". Aí ela se achou e puxou e seguinte LP:
Comprei na hora. Não me arrependi. O disco todo era marcado por aquele som "aquático" que eu imaginava ser de algum tipo de teclado. Mas estranhei nunca mais ter encontrado nada, nem informações, sobre Vincent Bell. Na era da Internet, pesquisei no site All Music, que é a referência máxima sobre música na rede, e achei apenas uma citação rápida. Na discografia, constava apenas o LP que eu tinha comprado. Concluí que Bell, como solista, provavelmente não havia lançado mais nada, mesmo. Ainda assim, eu achava estranho.

Ontem, num fórum de discussão de música, encontrei um tópico sobre sons estranhos que aparecem em gravações e despertam a curiosidade sobre como foram criados. Citei "Airport Love Theme" e tive a resposta de que se tratava de uma cítara elétrica. Depois recebi a informação corrigida de que o som era obtido por meio de guitarra e um primitivo pedal wah-wah criado pelo próprio Vincent Bell nos anos 50. Mas, com a intenção de localizar a capa do LP "Airport Love Theme", fiz uma busca de imagens no Google e acabei descobrindo mais dois discos de Vincent Bell não listados no site da All Music:


"The Soundtronic Guitar of Vincent Bell" e detalhe de "Pop Goes The Electric Sitar".

Seguindo adiante em minha pesquisa, encontrei um site inteiramente dedicado ao músico. Talvez o que tenha me impedido de achá-lo antes é que o guitarrista também é conhecido como Vinnie Bell:

http://www.vinniebell.com

E ali, sim, apareceu um tesouro de informações. Mas, para minha decepção, não constava a discografia completa. Nem dos discos lançados em seu nome, nem daqueles de que participou. Do segundo caso até se entende: foram centenas, pelo que se constata na amostra apresentada. Bell era um ratão de estúdio e tocou em diversas gravações conhecidas, inclusive de Roberto Carlos. Nesta foto abaixo, por exemplo, ele aparece ao lado do baixista Paulo César Barros, ex-integrante de Renato e Seus Blue Caps e irmão de Renato, no dia em que eles participaram da gravação de "Ele Está Pra Chegar", do LP de 1981 de Roberto. Paulo César também é um requisitado músico de estúdio e um dos melhores baixistas do Brasil:
Bell também criou modelos exclusivos de guitarras que depois outros utilizaram. Fiquei entusiasmado quando vi um link onde dizia: "Clique aqui para conhecer o segredo do som aquático de Vincent Bell." Cliquei e vejam o que apareceu:

"Revelado o segredo do som subaquático de Vincent Bell. Ele grava em baixo d’água... Esta é uma foto rara tirada em seu estúdio cheio de água."

Piadinhas à parte, o site poderia dar informações mais precisas sobre o músico. A biografia é interessante e cita mais um disco, "Whistle Stop", que teria sido o primeiro. Um verdadeiro presente é a página de MP3, com oito músicas para baixar. Seria interessante se algum pesquisador, como Ron Furmanek, resgatasse a obra do músico para relançamento em CD.

Agora já sei mais sobre Vincent Bell. Por outro lado, continuo querendo descobrir quem é Arno Flor, que lançou com o Coral Santa Helena nos anos 70 o excelente disco "Sehnsucht Nach Der Heimat" com músicas em alemão apresentadas num estilo que lembra Ray Conniff. É outro que, a exemplo de Vincent Bell, representa um mistério para quem gostou do disco. Por que não lançou mais nada no mesmo estilo? Ou lançou? Qual sua obra? Um dia isso também será desvendado.
 P.S.: Conforme dica de "Discoteca do Johnny" nos comentários, existe também este disco creditado ao músico, com o nome de "Vinnie" Bell, lançado em 1969 - portanto antes do LP do Aeroporto. Como curiosidade, os dois álbuns têm uma música em comum: o tema do filme "Romeu e Julieta", também conhecido como "A Time for Us". E, por uma amostra que encontrei na Internet, parece ser a mesma gravação. Sempre achei que essa faixa destoava das demais no disco que eu tinha, sem aquele som "aquático", então agora está explicado o porquê: ela vinha de um trabalho anterior, com outra sonoridade. 

P.S. (2): Procurando por "Vincent Bell", encontram-se dois álbuns para venda via iTunes Store: Pop Goes the Electric Sitar e The Best of Vincent Bell. Buscando por "Vinnie Bell", acha-se o Good Morning Starshine, mostrado acima. Mas nenhum deles traz o som "aquático" que lembramos do tema do Aeroporto. Nem mesmo o "Best of", que não inclui as faixas mais conhecidas dos brasileiros.

25 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Parabéns por ter diminuído o mistério de Bell. Gosto muito do solo dele em Airport Love Theme. Tanto que postei isto no meu blog:
http://blogs.opovo.com.br/dusbons/tocante-musica-de-cinema/

Janio Alcantara
Fortaleza-CE

11:04 AM  
Blogger Pr. Israel Lemos said...

Parabenizo-o pelas valiosas pesquisas sobre este gênio da música instrumental. Este LP de 1970 (eu tinha 12 anos) fez diferença em minha vida. Vincent Bell já não tão misterioso assim. Um forte abraço, sucesso e valeu.

10:25 AM  
Blogger REAJUP said...

Emílio, também sou pesquisador musical e sempre me fascinou a vida e produção de V.Bell.
Realmente é preciso se resgatar sua obra Airport 1970 - que certamente deve constar entre as mais-mais da historiografia musical da humanidade.
Meus agradecimentos pelas informações.

6:02 PM  
Anonymous Jose Santos said...

Meu amigo, que "via crucis", e que maravilha de informação ela nos rendeu!

6:31 AM  
Blogger edweste said...

Eu tive aulas de música com um brasileiro que é PH.D nos USA, chama-se Renato Mendes, ele tem na casa dele um Hammond B3, um Hammond RT3 e um Mini-Moog, um dia ele ligou aquela maravilha do Moog e sintetizou o som exatamente igual ao que o Vincent Bell criou, era perfeito, eu jurava que o som vinha do Moog até ler esse blog. Para sintetizar no Moog é necessário usar o "Phaser". Agora se ele era guitarrist, e essa de cítara eletrônica faz sentido não ser Moog, ou seja, depois dessa antítese, vamos a tese, se 'Bell' usava os recursos de som da época, que são usados até hoje, como Wah-Wah, Rate, Phaser, qualquer coisa que tenha inventado, pode ser, eu disse pode ser, uma mera adaptação para pedal, pois, no Moog o som fica exatamente igual ao disco. Talvez "Bell" nunca quisesse contar o segredo, e aquela foto dele na água é bem photoshop, não importa vou continuar gostando daqueles arranjos nota 10.

2:14 AM  
Blogger Emilio Pacheco said...

Aquela foto dele na água é uma BRINCADEIRA, obviamente! Por isso mesmo eu escrevi depois: "Piadinhas à parte..."

5:20 AM  
Anonymous Anônimo said...

Eu curto curiosidades............a música é obvia......a obra de V. Bell que me tocou mais foi o Airport Theme, o LP, e dalí surgiu uma curiosidade: quem era a mulher da foto da capa do LP?????
O som especial da guitarra, ou cítara eletrônica, ou que instrumentação seja, faz parte da fascinação desse grande album dos anos 70. Uma pena ter sido um estilo que não se perpetuou, o artista deve ter tido seus motivos, ou falta de inspiração, ou o que mais seja.
Lembram das maravilhosas obras de Rick Wakeman, um som saído do "Céu", na obra de uma garoto "terrestre", e que se restringiu a dois albuns apenas? O "Viagem ao Centro da Terra" e " Lendas do Rei Arthur"?
Acredito tbm que o mesmo efeito atingiu Vincent Bell, fez algumas poucas músicas maravilhosas e celestiais e depois retornou a um padrão mais comum............ são seres humanos .............
Grande abraço a todos.

8:30 PM  
Blogger Emilio Pacheco said...

Interessante o seu comentário, Anônimo, porque eu tenho a mesma percepção de Rick Wakeman e vários outros artistas. De que eles deixaram de ser quem eram e se transformaram em outra coisa. Eu gosto de quase todas as fases de David Bowie, por exemplo, mas minha preferida é 71-74. E foi uma surpresa para mim conhecer gravações daquele período que eu nunca tinha ouvido antes. Era como ouvir músicas novas "daquele" David Bowie. Kate Bush também nunca mais foi a mesma depois dos dois primeiros LPs (desculpe, eu sou do tempo do LP). Tem gente que se transforma irreversivelmente. A gente tem que respeitar as mudanças e evoluções, mas dá saudade dos velhos tempos.

9:20 PM  
Anonymous Anônimo said...

Emilio, as vezees é mesmo desconcertante como definir as músicas antigas, eu tbm me refiro sempre a LPs, um ato falho, que denuncia que somos da velha guarda, rsrsrs, mas no bom sentido. Minhas recordações antigas são tbm a base de vinil, mas saudades a parte, o som moderno em CDs e mp3 digital é mais "limpo", temos menos chiados.
Você captou bem o que falei sobre o que os artistas deixam de ser, acredito ser muito difícil manter um padrão de criatividade, daí que o bom de cada artista está numa fase apenas, eles não se fazem perpetuar, mas não por incapacidade, mas limitação humana normal, a que todos nós estamos predispostos.
Sim, eu respeito essa mudança, e também sinto saudades. Os anos 70 foram a grande marca em minha vida musicalmente falando. E foi em 1973 que o Pink Floyd gravou o monstro "The dark Side Of The Moon".............

Grande abraço a todos.

2:25 AM  
Blogger Emilio Pacheco said...

Se um disco saiu originalmente em vinil, não é ato falho nenhum falar em LP. Ato falho é quando as gerações mais novas dizem, como eu já vi uma vez: "Em 1963 os Beatles lançaram seu primeiro CD." Isso, sim, é gafe total!

5:33 AM  
Blogger Jairo Guitar man said...

Eu tambem ja peregrinei bastante tentando reproduzir aquele timbre.Cheguei a criar um pedal, meio misturado com o efeito "envelope", + delay + phaser, mas nem chegou perto.

2:35 PM  
Blogger Rosemary Carito said...

1634Foi de muita valia mesmo por essas informações a respeito de Vincent Bell. Muito obrigado *_*

1:53 PM  
Blogger discotecadojohnny said...

O Vincent Bell foi um musico de estúdio e foi lançado outro Lp pela mesma DECCA Uni.
nos anos 70 Com uma moça India na capa.
Aqui no Brasil foi somente para divulgação creio que não foi vendido nas lojas.
http://www.ebay.com/itm/Vinnie-Bell-Good-Morning-Starshine-1971-Psych-LP-SEALED-Orig-Press-Vincent-/371488467298?hash=item567e702962:g:suIAAOSwkZhWSqpG

10:27 AM  
Blogger Alex Helm said...

Foi através desse disco, "LP'...ainda o tenho em casa, original, comprado em 1972 ( tbém é a data que vem nele...) que fiquei conhecendo a musica "Nikki"- ( 2ª lado A) musica esta que também tem uma história fantástica....muito boa a sua pesquisa...!! Abçs...!!

9:59 PM  
Blogger Emilio Pacheco said...

Obrigado, Alex. Escutei recentemente em audiobook a autobiografia de Burt Bacharach e fique impressionado com a história de Nikki, a filha dele. Inclusive fui ouvir no YouTube a versão com letra.

8:27 AM  
Blogger Irma Ferreira said...

Estou aqui a fazer um arranjo para orquestra, do Airport, porque um cliente solicitou, e me deparo com vossas informações sobre o "mistério " de V. Bell. muito bom, obrigado Emílio

8:57 AM  
Anonymous Joel Rabelo said...

Parabéns pela pesquisa. Como sou amante de boa música, agradeço aos que dedicam seu tempo com essa busca de conhecimento. Joel Rabelo

1:37 PM  
Blogger Regis Dias said...

Pessoas como você é que nos diferenciam musicalmente dos demais. Excelente pesquisa. MUITO OBRIGADO

2:08 PM  
Blogger Eliana Moraes Tavares said...

Gente, que surpresa agradável!Sempre apaixonada por v. Bell e sem saber nada sobre ele,mt agradecida por informações tão valiosas, amei!

9:24 PM  
Blogger Studio Maestro said...

realmente 1 gde post, nos informar sobre esse misterioso musico do som aquatico.....
eu tava procurando musicas d vbel pra baxar porq eu ano t3nho na mminha coleção 1 musica q tocou agora na radio "calhambec instrumental" q nao sei o nome, e achei este post interessante pelo qual fiquei sabendo q vbel tocou em varias gravações d sucesso sem ter isso divulgado tao amplamente qto as musicas d sucesso......
agora qto a ele ter sumido a verdade é dura........sumiu por falta d talento. Sei q muitos nao vao aceitar essa dura realidade, mas essa é a verdade doa a quem doer. Vbel foi ou é 1 bom artista, musico, mas se sumiu é porq nao teve mais musicas boas. Gosto prq repertorio acho q só O VERDADEIRO ARTISTA tem. E quem seria ele? nao vou falar.
Beatles, elvis, roberto carlos, todos sumiram porq tinham 1 talento limitado apesar d gde. O verdadeiro artista nao tem limite, nao é 1 butijao d gas nem pqueno nem gde....
bom, obrigado por postar, deixeme continuar procurando mp3 d vbel.

10:21 AM  
Blogger Silvio Atanes said...

Sempre achei o som do "Airport Theme" misterioso e sedutor. Não sabia se era teclado ou guitarra. E, claro, foi gravado embaixo d'água. Tava na cara, hehehe! Esse tema faz parte de minha trilha sonora. Deve ter sido o primeiro aeroporto com som subaquático! Obrigado pelo voo. Abração.

10:02 AM  
Anonymous jmenescaljr said...

A música Airport Theme tem uma melodia linda. A música é linda e o arranjo é muito bom. Traz-me muito boas lembranças.
J. Menescal

8:27 PM  
Blogger Pedra said...

Ótima pesquisa sobre o Vicent Bell Uma pena que atualmente não se fala mais nele. Jovens não o conhecem.

4:46 AM  
Blogger mrbreves said...

Eu tinha 15 anos quando ouvi airport love theme pela primeira vez. Essa música me fascinou pelo seu som arrojado para a época, diferente e envolvente.
Me faz recordar bons tempos e sempre que posso a escuto pelo youtube.
Parabéns pela pequisa feita , achei muito interessante.
Renato Breves

12:04 PM  
Blogger Unknown said...

Lindo demais esse som maravilhoso e essas músicas, me remetem à minha infância. Eu ouvia com meu pai e tinha ainda 4 anos quando ele comprou logo que lançou o vinil Airport Love Theme, temos essa relíquia até hoje. Agradeço pelas informações que nos foram dadas desse grande artista é uma pena não termos mais trabalhos dele e ser tão pouco divulgado.

8:44 AM  

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