sexta-feira, julho 02, 2010

"...choram a morte do seu cantor..."

Só hoje fiquei sabendo que o cantor e compositor Abílio Manoel, português de nascimento radicado no Brasil, faleceu na terça-feira, aos 63 anos. Teve um enfarte enquanto assistia ao jogo Espanha e Portugal, vestindo a camiseta do seu país natal. Tive contato com ele pela Internet em 2004, no mesmo grupo de discussão onde também conheci Zé Rodrix e outros notáveis. Abílio ficou pouco tempo naquele fórum, mas suficiente para me satisfazer uma curiosidade: quem era a "Andréa" da música que fez sucesso bem na época em que comecei a ouvir música pra valer, em 1971? "Conheci-a nos anos 70 quando morei no México. Morenaça ao estilo latino-fatal", ele respondeu. Outra de suas revelações foi que o título de um de seus maiores sucessos, "Pena Verde", nasceu da expressão que as televisões já usavam bem antes das reprises das novelas da Globo, no slide que exibiam enquanto rebobinavam o vídeo-tape para repetir um lance: "vale a pena ver de novo".

Abílio Manoel fazia o gênero do cantor popular. Por isso, estranhei quando, em 1974, a Rádio Continental de Porto Alegre começou a tocar "Andina". A Continental era uma rádio alternativa, que não rodava nada que pudesse ser remotamente tachado de brega. Mas o diretor de programação, Marcus Aurélio Wesendonk, tinha consciência política e era muito atento às letras. Ele viria a programar duas músicas de Luiz Ayrão pelas mensagens nas entrelinhas e com "Andina" não foi diferente. Abílio a descreveu como "uma tentativa de promover uma identidade latino-americana no tempo da censura brava". Confiram os versos: "As morenas da cordilheira /as moradas do vale em flor / choram a morte do seu cantor / e é por isso que por todo o lado / há uma porta aberta e um corredor / toda a casa é bem ajeitada / que é pra chegada de outro cantor". Seria uma referência ao cantor Victor Jara, torturado e fuzilado pela ditadura chilena no golpe de 1973?

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