quinta-feira, março 10, 2005

O corno

O assunto da hora é Chico Buarque e a morena com quem foi fotografado aos beijos na praia do Leblon. Se a moça em questão fosse livre, a notícia provavelmente não teria a mesma repercussão. Mas não: ela é casada. Ou seja, tem um corno na história! Aí a coisa se torna realmente interessante. Mais ainda porque o marido manifestou seu desejo de continuar com a esposa, apesar do incidente. Que figura perfeita para se expor ao ridículo: o homem traído que está disposto a perdoar! Só falta sair na rua com chapéu de viking e nariz de palhaço.

Já observaram como nunca uma mulher é chamada de “corna”? Essa palavra não existe no feminino. Nossa sociedade machista aceita com naturalidade que uma mulher seja traída. A infidelidade é considerada uma característica essencialmente masculina. Homem que não trai é até visto com desconfiança. E a mulher que perdoa recebe elogios por ser magnânima e compreensiva. Foi só um deslize, uma aventura. É normal. O importante é que ele é bom marido, trata bem os filhos, é bom pai de família e blá blá blá. Que mulher grandiosa a que sabe perdoar! É uma pessoa de valor.

Mas o homem traído não tem escolha. A pecha de corno lhe é imputada de forma automática, sem direito a defesa. É como se fosse ele o culpado pelo comportamento leviano de sua companheira. Ou porque não foi homem o bastante para ela, ou porque não soube controlá-la ou ainda porque não percebeu desde o início que estava se envolvendo com uma mulher vulgar. E se, mesmo ciente desse fato, resolver perdoar, não será chamado de compreensivo ou grandioso: passará ao estágio superior da ordem dos homens traídos, que é o de corno manso. Aquele que, mesmo sabendo que levou chifre, ainda ousa relevar em nome do amor.

Talvez vocês se perguntem se eu algum dia fui corno. Realmente não sei. Se é verdade aquele ditado de que o marido traído é o último a saber, seria mais fácil vocês perguntarem às minhas ex ou aos urubus que as cercavam. Mas confesso que teria uma dificuldade enorme de perdoar. Por isso mesmo, admiro quem consegue. São homens irreversivelmente apaixonados, que preferem suportar a zombaria a abdicar da presença de suas insubstituíveis parceiras. A dor da saudade lhes seria mais penosa do que a da ferida mal curada que os acompanhará pelo resto da vida, mesmo com a insegurança e o risco da reincidência. Homens assim seriam merecedores de louvor, por seu idealismo e amor incondicional. Em vez disso, ainda lhes sobra o rótulo de corno manso.

Aos cornos do mundo inteiro, a minha solidariedade. Vocês são heróis incompreendidos.

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